UM POUCO DE AR, POR FAVOR - pelo olhar de Dimir Viana

UM POUCO DE AR, POR FAVOR
Pelo olhar de Dimir Viana
Ainda nos anos de 1990 em uma sessão da Universidade do Teatro Eurasiano ouvi o grande homem de teatro Franco Ruffini chamar a atenção para a não indiferença na arte teatral. Uma referência à importância de se voltar o olhar para a história do teatro. Neste evento ocorrido na Itália, organizado pelo Teatro Proskenion, pude perceber fundamentalmente a relevância de indivíduos e coletivos na condução de uma arte que se dedica com inventividade a reconceber o humano e as suas nuances cambiantes de existência. Neste sentido não posso ser indiferente ao que representa para mim o espetáculo UM POUCO DE AR, POR FAVOR da Cia. Pierrot Lunar.
A obra ergue-se em uma historicidade: 25 anos de existência! Seria esta longevidade um sinal de resistência? A despeito de uma resposta prosaica para esta indagação eu diria que este grupo resiste às tormentas da produção artística porque para seus componentes o teatro é uma necessidade. É um modo de existir. É um impulso vital de se fazer presente neste espaço e tempo históricos pautados pela negação. Negação de meios concretos para a expressividade e negação da poesia que pulsa em nós. Mas que bom!!!! Estes cidadãos e cidadãs alimentam os desejos que temos, enquanto público, por uma arte de qualidade. Não a qualidade da matéria lapidada, mas a qualidade que provoca sofisticadamente em nós alguma instabilidade.
Eu não poderia ser indiferente ao perceber em um espetáculo, aspectos altamente qualificados. UM POUCO DE AR, POR FAVOR é uma das montagens mais inteligentes que pude assistir nas últimas temporadas. Uma dramaturgia impecável que mesmo não demonstrando a reinvenção do texto teatral, deliberadamente circula pelas estratégicas de um metateatro. Não necessita um aprofundamento stricto sensu acerca disto, visto que o que alimenta a minha modesta reflexão mira outros ângulos.
A Cia Pierrot Lunar com a maestria de Chico Pelúcio me golpeou o estômago estético. As interpretações de Jussara Fernandino, Léo Quintão e Neise Neves sublinham a potência dramatúrgica de Luiz Alberto de Abreu ao ponto de me conduzirem para um jogo de conotação alucinógena. Eu via atores ora sendo personagens, ora sendo eles mesmos proporcionando uma circularidade cênico musical do mais alto nível como que em uma convulsão evidenciada por uma respirar ofegante contínuo desprovido de ponto e de vírgulas de semáforos ou signos insignificantes levando a cabo as misérias humanas num salto geracional muito representativo que faz do espetáculo uma obra dialogicamente adequada ao melancólico hoje.
Com esta peça a Pierrot Lunar dá mais impulso à sua inquietação. Reúne um time extraordinário. Um time que joga com a palavra, com o corpo, com a cenografia, com o figurino, com a musicalidade, com a luz, com a tecnologia e com o silêncio. Resultado: todos são vencedores. O êxito está em oferecer ao público um teatro vigoroso. Atual, cujo requinte, reitero, está em uma consequente inteligência.
Não cabe aqui dizer se gosto e do que gosto, ou do que não gosto. Logo o que vale mesmo é uma leitura ampliada sobre o que significa um espetáculo como este nos 25 anos de um grupo valente. Assim sendo mantenho a sugestão de Ruffini: - não à indiferença! Não posso estar indiferente à capacidade geral de um coletivo que se mantém em plena forma criativa. Que não se acomoda e timbra suas digitais na cena contemporânea. Um grupo que tem vocação para coletivizar. Que não flerta com as ações panfletárias. Que é ávido por arte. Muita arte!
Pierrot Lunar tem suas páginas na história do teatro de grupo. Alguém ousaria duvidar que 25 anos equivalham a um quarto de século? Bem por isso eu recomendaria a todos que assistam a este espetáculo. É uma oportunidade para tomar um pouco de ar diante de um panorama social, político, cultural e estético que nos sufoca. Perder esta oportunidade pode ser sinal de indiferença.
Aguardem a próxima temporada!!!

UM POUCO DE AR, POR FAVOR
CIA PIERROT LUNAR

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